buzinar

“em brasília evitamos buzinar”

sabe o q eu qiria?
hoje
tudo que eu qria era fazer minha poesia,
respirar pela última vez sua maresia,
sem me afogar, y qe essa asia
nossa de cada dia

num fosse mais que a memória dum borrão.

sabe só o q eu qiria?
poder dizer pra alguém no fim do dia
“hoje num foi nada, aquilo num foi nada”
só contar uma piada, tomar uma sopa, ir deitar
q porrada fosse só coreografia pra dublê de filme de ação

“schwarzenegger
van damme
stallone

chuck norris
vin diesel não
steven seagal”

(meu preferido)

“como é que muda de canal
na netflix?”

y acordar sem despertador
sem soneca sem pressa
num amanhã que num
parecesse 1887

q sair de casa pra rua num fosse tão
assustador, q os carros
respeitassem a
faixa,

que o CO2 respeitasse
os pulmões,

sabe o q eu qiria?
q meu corpo num fosse
tratado como banquete público,

que o púlpito num parecesse amo
(y o congresso seu mais vassalo súdito)

q o custo da vida da gente
das planta dos bicho
das água do vento

num fosse medido em acúmulo
em lucro

mas no valor único
que devia ter cada vida.

eu num qria ter q fazer poesia
de medo y raiva de ontem
do racismo da ferida
colonial amanhã:

“tudo tudo tudo tudo tudo
tudo tudo igual”

qria que esses abismo num
fosse mais um transeunte me atr
avessando as ruas da capital. mas “senhores visit

antes

em brasília

evitamos buzinar”

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retina

na retina do planeta,

pensando aqi qe a vida é
curva
qe a reta en
curta a distância entre
dois pontos mas a graça
anda mesmo é linhas
tortas;

pensando qe aqi só pra
nossos tímpanos de
sertos um par
anil

desafina a língua das araras
mas pro próprio celeste
do céu, y até pras
estalagmite

de areia y pedra (y repara que ali
todo mundo é quase
da mesma família:
fóssil, rupestre,
senil),

o tom é o mesmo: de azul
y seus des-limite.

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famigeradávidafamintavorazfamélica

a solidão anda comendo
meus silêncio anda comendo
minhas palavra anda comendo
qualquer coisa que não seja
uma y otro anda comendo

os medo
anda comendo meus desejo
anda comendo aquela coragem,

anda

comendo

mas come parada
come sentada
come dormindo também

come meus sonho os abismo
que me olham de volta sua boca
enorme aberta come meus
passo y até
o remorso
que não sinto
a saudade
que não tenho
um pedaço
que me falta
um retalho
dos meus
pulmão

a solidão
anda roendo
meus ósso
anda talhando
a medula
anda enferrujando
a espinha
anda circuitando
o nervoso central
meu cistema
nervoso
central
anda circuitando
o nervoso central
meu cis
tema:
nervosa
tangencial

anda tacando
serpentina confete purpurina
nessa quarta-feira cinza
como fosse carnaval;

y eu fico aqi
meio olhando
meio tropeçando
(de longe qem vê
parece qe eu tô pul
ando)
e eu fico aqui
só olhando
enquanto
ela só
não me come
as pupila, tampouco,

entretanto
nos cílio já chega
a saliva a saliva dela

chega, da solidão, essa
solidão qe anda
comendo

minha solidão

etc.

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traduzir

traduzir “traduzir” #1
amar as palavras, forma
solta de nuvem
um segundo tálí: ou menos
parece, um pisco depois
virou
sumiu
escorreu
mudou
daqui de baixo é quase que lenta a mu
dança (mas num é. imagina: o barulho a forç
a velocidade
do vento)
amar palavras é um trisco: provisória y vã
mas paixã pelo sentido
é amar que nuvem se desmancha
chuvas
é amar que nuvem se estilhaça
raios
corta o céu de todo jeito
céu do mundo
céu da boca
céu no peito
armar as palavras como cápsulas de sentido
é tão efetivo precário quanto comparar
nuvens y algodão. um afã um delírio
um exercício belo inútil de
tradução
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moléculas

não use microondas. é cancerígeno.

eu guardei o meu silêncio pra você
(como quem guarda um prato
no fogão pra alguém

que talvez vai chegar
y talvez nem tenha fome
ou talvez que nem vem mais)

embrulhei o meu silêncio num pano de prato
(como quem envelhece antes do
séc. xxi antes do boom

da tapeuér
ou da marmita de alumínio
y com certeza antes da de isopor)

eu mantive o meu silêncio requentado
(como o forno imaginário fosse,
invés, uma fornalha,

com calor lembrando as brasas
terem sido chama antes, horas antes, mortes
antes: que a vida era árvore y não madeira, antes)

eu pensei uma maneira de te alimentar
do meu silêncio: colheradas de vento?
entrando brechas-grades-grelhas
de metal desse delírio-culinário
mas acho só é que (p)ressinto

seu calor ausente
sua voz dor
mente
marcando um gosto frio
nos tímpanos do meu paladar

eu pensei que fosse um pouco mais fácil
te amar,

que quando você fosse embora minha fome não
fosse minguar,,

que o silêncio agulhasse bem menos quando finalmente
aprendemos falar,,,

mas como tudo obedecesse ondas eletromagnéticas
imprevisíveis nem sempre dá pra surfar
onde se mergulha:

e é cancerígeno sim. tem outras fricções,
mais saudáveis, pra aquecer
moléculas.

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vácuo

[no espaço, tudo é vidro y vácuo]

seu sorriso de aço
no meu peito enferrujado:
gume afiado, mas
em vão.

diz que sente,
sente falta y sente muito
mas quando senta é
longe de mim

pra ninguém achar
que a gente veio
junto

lume incendiado mas
tão frio

às vezes sua voz me assombra
: nos vazio
às vezes nem parece que existiu
: um “nós”

[& a falta de ar da leveza sideral]

(às vezes a sua incerteza
nunca foi real, você só
não quis me es
colher)

y às vezes a saudade insiste no que não precisa mais
voltar

(às vezes sua sutileza
foi tangencial,
você pre
feriu me esconder)

: é que precisar não move o querer

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saliva

de uma ponta a outra; y é nome
de tudo que come:

lá onde mora
o silêncio onde mora
o suspiro onde mora
o sussurro onde mora
a saliva,

lá,

de onde sai a saliva, a saliva

encontra a outra
ponta y saliva: escorre
a saliva esquent
a saliva entorn
a saliva torna pétala em

seiva,
e a concha se abre
e a língua leva
a saliva até

y toca
y lambe
y louva
a pérola y a pérola

brilha

brilha tanto

tanto tanto

que arde

“jura
não negue a minha boca
quando ela
vier” [beatriz águida em tom vermelho]

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