literatura é labor[atório]

literatura é labor[atório]

eu amo as palavras. mesmo. como elas se montam, como se desmontam, como se juntam, como se revelam outra coisa quando quebro elas no meio. escrevo tem tempo. tipo, MUITO tempo mesmo. com 08 anos eu já escrevia relatos ficcionalizados das viagens de família, da vida cotidiana. com 11, ganhei um concurso de poesia na escola e meu caderno de redação era o preferido da nunca esquecida professora dayse; aos 12, escrevi no meu diário um conto em que uma garota se apaixonava pela melhor amiga e largava o namorado; com 19 comecei meu primeiro zine, uns anos depois o la carnissa na coletiva corpus crisis de micropolítica feminista.

durante toda a vida escolar fundamental 2 fui A escrevedora-oficial-de-cartas-entre-amigas (mesmo cartas assinadas por outras pessoas!); no ensino médio criei um zine com duas amigas pretas amadas, as primeiras amigas pretas que me disseram “sabia que vc é negra?” – Barbara, camila, muito amor por vcs! com 22, 23 comecei a escrever meu primeiro romance!, uma fantasia sci-fi de 07 lindos capítulos, agora já sumidos num imeio que apaguei mas que foi compartilhado com a querida alice gabriel, que sinto como minha primeira crítica-literária: ela achou “incrível” minha manipulação narrativa de situações temporais em capítulos diferentes.

acho que andrei leu esse romance tb. ele foi o amigo pra quem, por anos, enviei meus poemas, evitando perdê-los de novo quando apaguei, pela sétima ou décima vez, uma conta de imeio pós-dor-de-cotovelo. com essa mania de apagar, perdi: meus primeiros 07 poemas escritos na vida adulta (poemas lindos, em inglês (?!?), que lembro terem sido lidos, também, com muitos elogios, por alice, andrei, Hilan; os 07 primeiros capítulos daquele primeiro romance; relatos de diário em que eu ia me compreendendo não só como escritora mas como pessoa, como lésbica, como negra… literatura sempre foi espelho pra mim. inclusive, principalmente, a minha.

mas também pela mania de guardar meus textos em imeios (minha versão pré-nuvens-digitais das nuvens digitais de hoje), y depois de aprender a parar de querer apagar quaisquer vestígios de minha vida literária pós-términos, é que hoje tenho tudo guardado, o que me permite a felicidade de revisitar minha escrita sempre que preciso y enquanto a internet durar… quem tinha medo do BUG do milênio? eu tinha um medo meio fascínio; fiquei tão frustrada na virada pro século XXI quanto fiquei quando, em 12/12/2012, a quinta dimensão maia não começou, apocalipsando/colapsando esse caos. mas, graças ao não-apocalipse, tampouco perdi meus textos.

y eu escrevo MUITOS textos. depois de terminar o doutorado, fiz um combinado comigo mesma, que sempre que posso comento: escrever um poema novo todos os dias. depois que voltei a compor, coisa que fazia desde criança, também, mas depois de uma incursão chateante pelo hardcore ficou meio de lado, passei a equilibrar esse combinado entre poemas y canções. então, quase todos os dias, me envio um novo imeio com um poema ou canção novxs, ou sua reescritura. faço isso há quase 05 anos, agora. poucas vezes escrevo em cadernos, que ainda tenho alguns (guardar seguramente faz parte do combinado, tb, y cadernos somem).

o servidor de imeio que uso tem um limite de maizomenos 100 novas mensagens por tópico. esses dias, fui selecionar textos pra livros novos. entrei no imeio pra recuperar esses tópicos de poemas y, quando digitei na caixa de pesquisa a chave “poemas y mais poemas” (que é o assunto da minha correspondência poética comigo mesma), fiquei surpresa, satisfeita, orgulhosa com o resultado: desde 2015 até hoje, são 17 tópicos, com cerca de 100 poemas cada (uns 2 ou 3 tópicos têm, não sei o motivo, 130, 140 mensagens), enviados por mim mesma ao longo desses agora quase quatro anos de combinado de escrever cotidianamente.

literatura é labor, é trabalho! tem um “elogio” frequente que recebo mas sempre me causa estranhamento: “amo sua escrita!! queria tanto escrever como você…”. eu respondo a mesma coisa sempre, y sempre honestamente: “no dia em que vc escrever como vc mesmx, vai amar sua escrita também”. eu tô há cerca de 30 anos, inconscientemente, e há cerca de 15, deliberadamente, talhando minha palavra. trabalhando na minha escrita, na minha palavra, no falar/pronunciar o que escrevo, criando arranjos sintáticos, metáforas, personagens, temas. mais recentemente tenho trabalho muito na minha canção tb, no cantar o que componho. isso é laborar.

um trabalho que faço apaixonada, mas que é trabalho. não é hobby, não é lazer, não é despejo emocional. tem inspiração sim, tem situações/sentimentos/histórias/fatos/sonhos que impulsionam a criação sim. mas tem principalmente o talhar a palavra. sem isso, sem esse labor de escrever, reescrever, reler, deixar assentar, voltar pro texto, reler de novo, reescrever mais uma vez, eu não faria literatura, não seria escritora. não me CONSIDERARIA escritora. acho que é maizomenos como nadar y ser nadadora. dançar ou ser dançarina. cozinhar y ser cozinheira. estudar ou ser pesquisadora. pensar y ser filósofa.

“lundu,”, que é um dos meus poemas preferidos, foi refeito umas 50 vezes; cada vez que declamo, falo de um jeito diferente. a palavra É movimento, assim como a gente. y ela tem um movimento próprio pra sua construção/reconstrução. talvez me entender no ritmo desse movimento da palavra é que me faça entender que sou escritora. na real, ficar parada esperando algo mágico acontecer pra aí poder escrever nunca funcionou pra mim – mesmo tendo uma escrita super subjetiva, eu preciso do movimento frenético das sinapses. esses 17 tópicos com mais de 100 imeios/poemas cada me relembraram com muita nitidez: escrever é reescrever.

numa conta rápida, são uns 1700 poemas. alguns, os preferidos, os “mais importantes”, ganham ao menos 03 reescritas (as 50 versões de lundu, são atípicas). muitos são só poemas médios, outros nem chegam a ser bons. alguns são tão herméticos, foram escritos em momentos tão específicos, y nunca mais visitados, que nem eu mesma, ao reler, me lembro do que eu tava tentando falar naquele dia, se era sobre alguma coisa específica. uns são ruins e/ou fracos. outros, exercícios de palavras sendo amontoadas, desmontadas; experimento composicional de grafia, ritmo, som. uns 3/4 dos quase 1.700 são poemas “prontos”, ou “a versão final” dum poema.

ou seja, em 05 anos, fiz uns 1.200 poemas novos (as canções vão pra um outro assunto, “cancioneiro popular”, então não entram nessa conta). também não tão entrando, nessa conta, as páginas de diário; os textos em prosa (acadêmica; contos; crônicas; relatos como esse; imeios motivacionais; mensagens de autoajuda …); os textos que preparo pra palestras, formações… eu escrevo muito, gente. muito mesmo. amo escrever, mas não só isso (de novo: amo nadar tb, mas não vou todo dia no paranoá): me comunico comigo mesma y com o mundo pelas palavras: experimento nelas devires subjetivos, coletivos. y experimento MUITO.

por isso minha literatura, além de labor/trabalho, é labor/atório. quando vc ler um poema meu y achar ótimo, lembra que tem uns outros 87 guardados, pergunta quantas vezes será que foi re/feito antes da partilha. quando achar minha palavra genial, lembra que pra mim ela é engenharia. eu, que diferente de drummond, não acho vã essa labuta, uso a palavra como ponte pra atravessar os vãos de mim comigo mesma, de mim contigo. “gênio”, “engenho”, “engenharia” têm muitas parecências pra mim. y tenho mesmo parte com a palavra: além de ter lugar de fala, faço da fala lugar meu. que ocupo com uma arquitetura passional, pra que se faça boa morada.

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todosnomes

raíces y rotas (ou “todos nomes de deus”):

dialgum lugar da exuzilhada entr açaí púrpura grená
y um sebastiânico marrom-esroxeado
foi que eu vim;

& no meio dum hiato transatlântico
diastema nostálgica do
embargo tectônico
foi que eu quase
quase quase me perdi;

em busca do naufrágio supersônico
que (d)eu(s) me livra(i)sse desse
ranço pós-mestiço (que
o pânico catiço desse
um pau no lastro heurístico)

esse ex-fado laico-pai-nosso
deles nos bas tarda mas não falha,
y navalha, y navalha, valha-me meu
santo-ex/tado-de-ex/pírito tão aquém
desses vício em amém)

eu vi:

do apométrico em
mefafísico
de algo herético al
goritmico in
quisitorial ar
dente ao al
corão al
dente não basta mono
-temático
-teológico
tem que latifundiar

a fé (sem um vento, afefé,
uma lufada, lufã, ou sipá me ouve
tupã, quiçá boitatá ou bessen), tamb
ém
hein
sem
feng-shui de templos ou umbrais
pero cá
nas
bandas equatoriais há um
bandas ancestrais; me traz
uma ma
cumba y una buen
cumbia quifas meu Sahashara
se d i z Orí e n t a r (s)in paz (do chuí

ao saara,
adelante
y de atras

são todos pontos
cardiopatas cardinais
da mesma Sé
ara | se
para —

que religare que nada
— os ohmens
dos reles i-
mort-
ais)

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presságio

o presságio
:
nesses tempos tão sombrios
conservemo-nos serenxs
cada movida da luta
sempre é mais,
nunca menos

o fascismo é apenas uma face
do medo, e não do poder

enquanto nutrimos a esperança
eles não vão
nos vencer

(uma paródia de cassiano ricardo, pra alimentar a vida nesses tempos de medo da morte)

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marinhêra

“o seu nome eu escrevi
na areia
a onda do mar […]”

é salgado é sagrado
é saudade o mar
era vc vc era
:no sonho

de tantas eras
marés areias
lua cheia era no
outro hemisfério, sur

quanto aqui tela preta
o céu-ecrã meio blur
que meus olho, imit
ando rebentação
salgada s
agrada saudade

de vc vc vc,

—ejava
—ulhava,
—inhêra só,
a—gava:

“eu não sou daqui,
eu não tenho amor”

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talhos,

aprender a tempestade,
soltar seu peso,
secar ao sol:

rugir trovões

derramar a tempestade,
despir de peso,
pairar no sol:

cantar trovões

suceder a tempestade,
fluir seu peso,
beijar o sol:

gozar trovões

antecipar a tempestade,
ruir seu peso,
lunar o sol:

cuír trovões

e pra que nada te desfaça,
se refaça, se refaça
se re-
faca.

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você o mar

sonhei que vc era o mar
suas ondas diziam
que iam
ficar com tudo
me lembro de pensar
que já tinha te dado tudo

y de bom grado. qualquer coisa
que restasse vc tb podia
levar.

do lado de lá do sonho uma
voz no tempo dizia
“2063
ou 63 anos”
(o que chegar primeiro)

y eu
acordei
assim mesmo
sabendo que já tinha

acordado.

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