a dança

“qual é a música, maestro?”

eu ainda tô aprendendo
a te amar
a não contar as horas
não chorar demoras
nem temer recusa

desalimentar expectativas difusas
(profusão de análises semânticas
dum “oi” que significa só ele
mesmo: “oi”)

eu ainda tô aprendendo
a me perdoar
não ter falado um tanto
(ou ter falado tanto)
por ter errado tanto
quanto você
por me machucar

(y com certeza um dia
me perdôo por te
machucar)

eu ainda tô aprendendo
a tatear a densidade leve do ar
nessa ponte que erguemos entre
o meu y o teu
silêncio
a tua y a minha
ausência
a histórica
carência
a memória da
latência
a querência da
trajetória que tentamos
trilhar juntas mesmo em tanta
perdição

y inda tô desaprendendo
o teu mais que meu
desapego
y el mío mais que el tuyo
celo

a esquecer
o que não
tem per
dão

não existe mais máquina do tempo
depois dos 32 (anos, dentes, anéis de
saturnos, casório-y-separação, DRs y des
ilusão)

mas talvez tem mágica no vento capaz de
dar uma pausa no tudo que aconteceu depois
que eu viajei pra salvador y você cantou,
no caminho do aeroporto,

“nunca mais
vou gostar de você
nunca mais”

.

ou se não uma pausa, só:
dissolver o mal-estar,
se não dissolver só:
nos lembrar:

que num tem mal-estar maior que aquele afeto doido que foi/fez
sentido. que um dia caiu. que se machucou. que joelho ralou.
y que um dia virou outro afeto: uma noite se desvelou.

y olha:

fosse aquele tempo eu cobria com babosa
machucada y mel (melhores cicatriz
antes) o joelho ralado do afeto
eu colava um bandeid em
cima y até dava um

bejinho

pra sarar

mais depressa

mas como o tempo é esse agora tô mirando
a cicatriz pra lembrar que
tudo que corre
pode tropeçar, pode cair,
pode escorregar. ou pode ganhar
impulso pra voar, na beira dos dois gumes:
planar. pousar.

demorou uma era, bissexta²,
pra eu poder me rever do seu lado
y tô reaprendendo andar no meu passo
(que c zombeteira troca com o seu). sipá um dia

nesse tempo-espaço

a gente

até

volta a se bailar.

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bença

com a benção de Oxalá,

seu nome uma mancha bonita
carrega meu plexo: aquela dignidade
de quem já sangrou y bem tranquilamente
cose no tempo suas cicatriz,

balança no v e n t o:
bandeira rosa, é,
mas rosa sa(n)
grado que
ele deu
pra ap
assentar Onira, viu?

né coisa de cor de barbie

não

(que tudo o tempo faz
velho, y tudo
que é velho
agridoça feito licor)

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avesso

o avesso da vida num é a morte, é o medo:

eles plantam um chip na gente,
no fundo da nuca, quinem aquele filme
do keanu reeves, lembra?, quinem na base
da espinha daquele outro, do cronenberg, sabe?,

plantaram um nanochip no fundo da gente
pra ativar um medo de morrer quando
tá quase ficando feliz. (a daisy
sabe. analu também. y os
pássaros com nina, eles
sabem eles sabem ela
disse que eles
sabem)

plantaram um p(s)icochip na gente
f e m t o z e p t o y o c t o
lá no fundo do nosso
cerebelo vaso
vagal lá
onde o lolo tá tão inflamado que
as patinha dele perdem o equilíbri
o focinho fica torto prum lado cambale

ando achando procurando buscando esse
micro nano pico femto atto zepto
yoctochip que eles plantaram

no mundo

do fim do fundo
de mim eu s
ou
tão apo
calíptica mel
dels mesmo num
sendo católic a
postólic a romanic
a bíblic será que será
que será que será que será
se num é eles o chip deles não?,

será que é da nasa será que é de louça
será que é de éter o chip da cia? y se com
a morte nos meus calcanhar eu ando escapando
por um triz

y se eu morrer y não cair
no céu ? y se eu pudesse e
ntrar na minha vi – iii – da

[imagina o milton cantando essa paródia aqui, imagina imag
ina imag inimag]

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dançar

a dança dos mortos:

eu tenho a razão no passado,
o futuro nos sonhos,
y o corpo numa
brecha do espaço-tempo
[#ElaNãoEstáMais]Presente¹:

veio com útero, mas nem
por isso me chamo
mulher

; eu também quero furar
aquellos muros eu tam
bem sou feita

de ar
de verve
__ tédio y
de medo eu

já dancei a coreografia
lenta quando amor
te acord a vida

, eu tam

bem atraves
sei aquele mar sem colete

nenhum.


††
†††
notas:
¹nos deixem celebrar
que estamos vivas não
venham carpidar nossxs
Eguns: 13/04/2016; 14/03/2018

v. 2

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solidã

a solidã da poeta preta

porque tive uma amante que
amava me beijar assim que eu saía
do palco mas em nenhuma das muitas
vezes que fiquei de cama por tristeza
fraqueza
loucura
ou dor
apareceu,

aprendi que
quanto mais as pessoas gostam
da poeta menos querem ver a pessoa

.

e eu, que
como todas as pessoas
quero também ser gostada
por ser pessoa
(não só
poeta),

não consigo mais ver
coisa boa
nalguém chegar
elogiando minha poesia
mas virando olhos, mas distraindo
quando começo a falar qualquer coisa

que não responda mais
seus elogios

eu nunca escrevi poesia
pra ter fãs. pra ser famosa.
pra virar trender. eu só montei

uma ponte pra

me

comunicar

y eu sei que num tem a ver
com minha poesia, que é uma linguagem,
que é sagrada, que é um pedaço fundo bonito
importante de mim (mas só um pedaço)

mas às vezes dá vontade de ser só
uma p e s s o a
no meio de
outras

sem nada mais grandioso que apenas
o encontro que se desdobra
no silêncio da presença

sem aplauso
sem holofote
nem preten-sã
“sem divas nem divãs”
(quinem dolores me disse)

sem a máscara
das palavras
escolhidas a dedo
mas sem
t(r)ocar

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tez

“ouvir história”

era uma vez,

era uma vez era uma vez era uma vez era uma vez era uma
era
era uma
foz

era uma vez e era uma
tez era uma tez e outra
tez: escurid
ão
era
arid
ez

era uma es
grima era xadr
ez uma gu
erra

erra uma vez
era uma vez
erra uma vez e erra uma
voz
(era uma v o z
era uma VOZ
era uma voZ
era uma vOZ
era uma VoZ
era uma voz)

éramos
errantes

nós

nos
quiseram
nós
fizeram
rés
vós

mas som
e s O m
e SoM
e SOM
e s o m
e so M
e som

e somos
era
vez
tez
voz
e somos
foz:

peles-mares
navegantes
delirantes
trans
bord
antes

era uma, nós
nós há Eras:
u m a

(na)
(não)
(?)

e somos
sim nós Somos

tez

uma Era tez
uma Era t e z
uma Era t e Z
uma Era t E Z
uma Era T E Z
uma Era TE Z
uma Era TEZ

Uma Era voz
e todas
derrepente
mente voz
se fez:

“era um era dois era cem […]
tinha um que jurou
me quebrar
mas não lembro de dor
nem receio
só sabia das ondas do mar…”

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