cadentes

(de) tudo que se distrai (e) cai piscianamente no mesmo buraco, ou
 
no afã da carne das coisas,
quedo,
imaginando um baile
do intangível, in
alcançado &
 
restless
 
(se os budista tinha o tao da razão;
se seus dedos nos meus
medos, &
só)
 
na falta de seus lábios em pares bebo
suas palavras que a boca (ad)
verte
 
e seu revés:
 
silêncio que quase não se ousa tocar o
cerne das coisas, e n’aflita do
cerne das coisas, dum
mientras las cosas,
 
(como se os meus iriam da curva oblíqua sua
asa baja – tus espaldas – hasta la tierra
que sacra la raíz – de tus pellos
adivinhar fantasias a cintura
das coisa – tuatuatuas
volta na lua)
 
na-da profundidade que se dobra
ar-rítmica / marítima /
mítica me sobra
 
o cais.
 
imagino tu desertos papilais,
 
salivando meu céu da boca
como estrelas de condão
me-teorizando o céu
da boca ou ca
 
dentes
 
de brio opaco
 
feito estrela sem-pedido ou constel
 
ação sem vácuo: eros na zênite perpendicular
 
do caos.
 
v. 3
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naturezas

tudo traz na sua natureza passar,

ossos caindo areia queimando vidro quebrando cacos juntando pó, ventando, pra espairar:
é da natureza de tudo chegar, e seguir suas andança – horizonte só é fixo até
onde as vistalcança

(e olhe lá)

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baobá

baobá

cheio de lagri
mar, o meu peito tá cheio de lagri
mar. pra quem veio do lado de lá do mar, é
no peito que planta si-próprio: lar. cheio de lasti

mar, o meu peito num veio pra lasti
mar. pra quem pensa que banzo é sobre volt
ar, o futuro é um meio de retornar. cheio de l’amém

tar, o meu peito tá cheio de lá, men
tal. pra quem tejo do avesso do
tempo, mar, é no peito
que dança-si: um

baobá

v. 6

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mesozóica

os olhos do mundo têm uma fresta
por onde se vê, quanto lindo,
tanto passa(n)do

as vozes do mundo emprestam um som
de vestígio ao natural das coisas,
levitando dúvidas

nota-se que a mirada do mundo mora em silêncio,
e que do teto de sua garganta entorna
uma lágrima (estalactada):

seu pranto mimado antecipa um carnaval de vésp
eras: mundo vasto cabe num ponto final,
por enquanto, ou numa quarta-

feira de cinzas dum vulcão qualquer,
magma velho der
retido.

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cabresto

sei da sua compleição
(você que nunca soube lo
que hacer da minha complex
idade: fui sua-
vez),

suave como noite é tempestade,
suave como nada clave nem verdade,
suave como arranhar arestas com as unhas

roídas

sei da falta cada coisa faz
cada coisa em seu lugar, inclusive
sua saudade: sei ausências, desequilíbrios – sei
que meus mal-ditos enchiam com fantasmas seus anéis, de

ruídos

(e que não vai fazer falta quando passar a falta que me resta pra sentir

você de mim, memórias trajetórias que se perdem suas

réstias: y a terça que eu fazia pra tua voz

diminutas, agora, di

minutas)

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empírica

platônica, onírica, e, afinal, mítica;

    te faço versos
    te sonho beijos
    levito o plúmbeo

    y digo menos
    do que eu sinto
    mas já o bastante
    ante todo lo que sé:

que a ciência do desejo é sempre empírica.

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realizar

o barulho da rua não para pra ouvir um sonho se realizar

a véspera do sonho se realizar é um dia como qualquer outro, em que você acorda, você dá bom dia pra alguém, você ganha uma lambida de alguém, você briga com alguém, você almoça com alguém que te cede o lugar do sofá porque já acabou de comer, você pede um favor pra alguém próxima como sua mãe, você faz um favor pra alguém próxima (como uma amiga), você pega ônibus, você paga uma conta, você espera o semáforo fechar pros carros, você atravessa a rua quando o semáforo abre pra você, você vai na fila do supermercado se tem algum dinheiro, você nota como aumenta a cada dia o número de pessoas sem dinheiro na rua, você entende que a cidade fede nos cantos porque pessoas cagam na rua, e você se lembra que se as pessoas cagam na rua é porque elas dormem na rua, e se elas dormem na rua elas também gozam na rua e você espera que esse gozo seja sempre de relações consensuais mas você ainda lembra que sente medo de andar muito tarde na rua à noite porque ainda acontecem tantos estupros

os estupros não param de acontecer pra ouvir um sonho se realizar
a lua não deixa de crescer pra ouvir um sonho se realizar
a vida não para de caminhar pra ouvir um sonho se realizar porque,
se a vida parasse por qualquer motivo que fosse, os sonhos nem iam se realizar

o barulho que tem de um sonho se realizar é uma criança correndo numa praça quase longe
o vento sacudindo as folhas de uma amendoeira solitariamente corajosa contra o concreto quebrado a seus pés
uma buzina que não significa pressa e sim até logo
o eco da risada de uma amiga te dando um conselho antes de você descer do ônibus
a cumplicidade do teu irmão te contando um segredo astrológico
e o silêncio tranquilo da sensação de se sentir grata por todas as pessoas, materiais y imateriais, que caminharam até aqui contigo pra isso acontecer assim tão naturalmente

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