empírica

platônica, onírica, e, afinal, mítica;

    te faço versos
    te sonho beijos
    levito o plúmbeo

    y digo menos
    do que eu sinto
    mas já o bastante
    ante todo lo que sé:

que a ciência do desejo é sempre empírica.

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realizar

o barulho da rua não para pra ouvir um sonho se realizar

a véspera do sonho se realizar é um dia como qualquer outro, em que você acorda, você dá bom dia pra alguém, você ganha uma lambida de alguém, você briga com alguém, você almoça com alguém que te cede o lugar do sofá porque já acabou de comer, você pede um favor pra alguém próxima como sua mãe, você faz um favor pra alguém próxima (como uma amiga), você pega ônibus, você paga uma conta, você espera o semáforo fechar pros carros, você atravessa a rua quando o semáforo abre pra você, você vai na fila do supermercado se tem algum dinheiro, você nota como aumenta a cada dia o número de pessoas sem dinheiro na rua, você entende que a cidade fede nos cantos porque pessoas cagam na rua, e você se lembra que se as pessoas cagam na rua é porque elas dormem na rua, e se elas dormem na rua elas também gozam na rua e você espera que esse gozo seja sempre de relações consensuais mas você ainda lembra que sente medo de andar muito tarde na rua à noite porque ainda acontecem tantos estupros

os estupros não param de acontecer pra ouvir um sonho se realizar
a lua não deixa de crescer pra ouvir um sonho se realizar
a vida não para de caminhar pra ouvir um sonho se realizar porque,
se a vida parasse por qualquer motivo que fosse, os sonhos nem iam se realizar

o barulho que tem de um sonho se realizar é uma criança correndo numa praça quase longe
o vento sacudindo as folhas de uma amendoeira solitariamente corajosa contra o concreto quebrado a seus pés
uma buzina que não significa pressa e sim até logo
o eco da risada de uma amiga te dando um conselho antes de você descer do ônibus
a cumplicidade do teu irmão te contando um segredo astrológico
e o silêncio tranquilo da sensação de se sentir grata por todas as pessoas, materiais y imateriais, que caminharam até aqui contigo pra isso acontecer assim tão naturalmente

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mousse

bati… fiquei batendo aqui, cupuaçu em mousse
pra fingir “você é doce”, mas da tal da tua doçura
só relembro minha esperança. a carapuça de açúcar
não cai bem nem nessa fruta, e não me iluda: negrume
é negrume; azedume só uma rima, entre/tanto (im)possível.
e tome bem cuidado o coração, menina, e ai se eu tinha lembrado
e te dado esse conselho antes desse gume azedo me partir o coração,

menina, e

ai se eu tinha
te lembrado que
fruta madura num m
atura cedo,
e doce dela verde é sempre
arremedo do gosto certeiro, ou

mei “de vez”, e

ai…

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zara

eu e essa minha urgência, feitas do mesmo banzo:
levantar madrugada ao meio sem saber em que lugar,
mesmo na cama própria. é que o sonho… sonho o sonho

o sonho foi tão real; que

o longe… tão longe longe, lugar sonhado…; que o tempo é o
tempo ê tempo zara tempo,

sara, tempo?

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lisura

ou tudo em mim ser crespo frente tua
lisura:
nome-eu,
caridade fingida
de liberdade inventada,
se contrai na rua-tua (e até
nela o sobrenome é herdeiro!).
você-olhos, y me tocam:
numa fome, uma fome
um banquete eu faz
ia pressa sua

fome

(de

mim)

eu-olhos idem
febre fome des
tempero te lambia
a cintura, tua cintura,

elipso-

idal:

quase es
cura
quas ro
liça
quase te
mordo
de leve só
de beiço só

serve?

se é que
podia querer
quase bejo, nem
bejo mesmo, mais
labiar suas peles, só
(sem os molares duros
da clandestinidade os olh
ares afiados do decoro s
a(n)grado o comprom
isso!,) você:dedos
e todos pr a
néis já po
usados

(eu

só)

então não, saia,
se saia você-bejos
alados pousam eu pes
coço arrepio além,
y de te passear
clavícula des
manchei toda no
banco do carro, meu
deus!, reinvenção do mar
desaguaço mas no
banco do
carro!??,

de só

te encostar

clavícula (quase

ombro), você-

mãos:

me rodeia em arredio
não pousa pernas-eu, não

pára, aquém
lado seco você
mesmo banco do

carro? areia toda
praia un recuerdo dos
desertos de desterros eu es
corro banco a maciez ante
via pele-eu de
você-mãos,

queria,

mas gêmeos você,
oco de segredos
alheios: a
criptografia
da floresta, a
astrologia da ressurreição,

a mão que se quase
me toca
se volta e se pousa
no banco
do carro,

tangencial,

maciez

quase-mãos-você-em-pernas-eu,

mas quase
e nada
é a mesma coisa,
quase.

então,

não:

se

saia, e tire

olhos-fome-você

de cima

de mim.

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se

sobre um cara que te passou doença no meio da rua e a mulher que quase levou minha crença quando partiu (e meu coração) no meio do tempo:

sentindo falta dum amor que não tive com gente que quase tive
(e crente que quase me teve)
sentindo a forma duma dor mais velha que as parede (e quase
tão cariada) dum sobrado da são salvador
sentindo a força dum agô mais longe que a ideia de ocidente
(essa que quase – quase – civiliza a gente) que a índole
do oceano que um ícone

desse engano

um acidente difuso
visual desigual
(ela me via
cores,

sem

graus)

daquilo que não me representa nem me espelha mas me
perimetra,
continente. sentindo a fala na espreita entre o palato e o dente
sentindo o silêncio na pele dormente, no desejo que finge e nunca
mente: uma febre é uma febre é uma febre é uma febre: malária. terçã. zyka. paixã-

ou reza(, “a menina é pagã”, a mãe disse ela disse, e que quase era amor quem socou sua boca em flor)),

e a noite é o avesso espesso da manhã mas igualmente brilhante,

lembre

se.

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