lundu

vem cá, deita em mim que nem ar que de tanto amar a gravidade deita em cima de tudo que tem na superfície dessa terra y empurra quem tá dentro dela, ou que nem água vai se deitando em ondas sobre toda areia de qualquer praia pela dança do humor das marés, vindo indo no fluxo do vento, da lua, do sol até, se te fizer sentido

ou chama de F31.oceânicas se te apetecer, que elas são imprevisíveis
pra afobação contida dum relógio, um diagnóstico (de “doença mental”). mas vem, deita aqui que eu te recebo, y todo seu desejo refluente mas sempre

presente, ao mesmo tempo embrulhado y anunciado do silêncio que suas várias vozes calam,

mas sempre

presente. eu quero que c me queira tanto y lento que nem um anú pairando no vento, pra quem o ar é casa tanto quanto a asa é força da expressão de sua graça, da engenharia sutil do seu povo, uma herança (alada),

que c pouse esse eu me tremer aqui dentro num sopro de saliva quente que nem vida significa ar prum anú muito além da pérola macia da pleura dele

no querer do seu desejo meu desejo refez inteiro (veja bem, eu não nasci lésbica)
na arrebentação do meu desejo te quero oceano ao avesso (uma hipotenusa desértica)

é assim que eu sinto o que é dialética,
y esse meu abandonar também é

uma diáspora

tem um som
um som que o seu cabelo faz no meio do meus dedo
é quase um tom específico de crespo
guardado entre as camadas de uma voz sua sampleando cada pétala de flores como na sua boca toda tragédia fosse
virar música de novo
beat
box

é que eu te vi dançar, eu te vi dançar eu te vi dançar y em menos que um instante eu já sabia que tudo ia fugir dentro de mim se eu não te respirasse feito um cheiro antigo estranho familiar
nítido
se c não fosse a pele exata da noite embaixo do sonho escuro de minhas

pálpebra

aí eu voltei lá y prometi pra todas elas, ondas do vento, sopro do mar, gotas de sol fossilizando na minha pele o corpo evaporado de água-mar em pedrículas de alma-sal, uma lembrança
eu prometi que eu fazia um lundu pra você quando esse desejo chegasse
y recuasse
avançasse
y recuasse
assentasse
y recuasse molhando fundo ancestral perene turvo tudo que transborda de você y eu na beira desse abismo, beira do mar.
na beira do mundo, as ondas deitam na maré pra encher
assim como vento deita num pulmão pra suceder
a escuridão no horizonte pra anoitecer
y eu
deito
em você.

(versã 35?)

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