manhã

minha mãe é vento
todo dia cedo vou me abraçar dela no ponto de estrangulamento da paisagem
onde o concreto aparente do arquiteto só não se derramou sobre a réstia mais valente do cerrado porque em algum lugar eles tinham que instalar uma malha de eletricidade.
os postes, com seus braços rígidos estendidos pro céu, não abraçam Oyá. eles apenas reverenciam o maquinário da cidade dividida por ruas estreitas, esburacadas, de alta velocidade, baixa reciprocidade.
de um lado prédios de 35 andares, do outro condomínios inacreditáveis, 5 suítes cada castelo, sete garagens pra todas as carruagens.
ando por um mei de mato onde os anús ainda conseguem montar seus ninhos a despeito da desova de cachorro morto, entulho, embalagens de todo tipo de plástico da mesma natureza petrólea.
as redes de eletricidade fazem um zunido constante que na minha cabeça… lembra aquele filme da pretty woman lutando contra o câncer comendo as vísceras das crianças por morarem perto demais de uma malha de eletricidade?
os aviões passam longe levando gente que num conheço pra num sei onde mas não me dá saudade daqui,
quase nada me dá saudade daqui
só a ausência dágua no leito afogado desse rio onde me emburaco no ponto de enamoramento das visagens, dos delírios, a ausência das águas claras enferrujada
por dejetos
por entulho
pelos sonhos de concreto do arquiteto mais famoso que a cidade que ele nunca habitou
por onde nunca
caminhou recebendo uma rajada de poeira poeira lavadeira enfeitadeira poeira poeira vermelha contra os olhos.
minha mãe é vento e todo dia de manhã eu vou com os cachorros me abraçar com ela no ponto de entorpecimento das minhas cartilagens
o coração é uma engrenagem rangendo fundo no peito raso rasgado pela amargura da cidade
aço, concreto, paisagem de cimento
minha mãe se chama a dona dos ventos, das tempestades, e dos mortos.
um abraço dela vale mais que duas mil setecentas y vinte passagens de ônibus pra qualquer outro ponto roto dessa cidade
e por isso eu preciso seguir delirando
eu prefiro seguir delirando
e é por isso que eu sigo delirando.

(“dont fall asleep at the wheels
i waited for you but you never came

you better keep moving”)

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