símio

tá muito seco
o clima o tempo
os coração
tem uma aridez
aos poucos corroendo
as opinião
você me conta
que se espanta
tem muita gente branca
pondo banca de
democretinos raciais
pra usar como enfeite na balada
cores ícones histórias memórias
ritmos espíritos ancestrais
invadem espaços alegando ser
importantes convidados
legitimados representantes
indispensáveis informantes
mas… tão dissemelhantes
(interrogação)
acho que eu pareço mais
com o símio
que com o capataz
no fim das contas
você me conta
sua desconfiança
na pista de dança
por que querem tanto as vagas da universidade
mas não as da prisão
(interrogação)
você ficou indignada
por que querem tanto um pedaço fingido de negritude
pra brilhar na hora do palco
mas na do baculejo sacam da manga
sobrenome polaco
francês alemão português italiano europeu
diferente do seu
do meu
(interrogação)
você quis dar porrada
“quem tem cor, age”
e foi taxada de macaca
incivilizada
insana selvagem
arruaceira barraqueira
se-pa-ra-tis-ta!, “inverso-racista”
e inconvenientemente sapatão
que a hora da balada é só pra diversão
“não atrapalha não!”
“polemiza não!”
“fica de boa neguinha, é só uma apresentação…”
de boa tranquila calminha adestrada docilizada
civilizada
cheia de modos y bons costumes pra abafar
da raiz do seu cabelo
até raiz do seu pretume
que white is the new black agora
e turbante também coroa a descendência da princesa isabel
somos todos hermanos
mestiços latinoamericanos
no veo por que no
né não.
(interrogação?)
é a fluidez das identidades
na pós-modernidade
diluindo qualquer fronteira, dissolvendo qualquer papel
será
(interrogação)
quem vai contar a novidade pra polícia,
pras milícia,
pra indústria cosmética
& também pra das empregada doméstica
quem vai avisar pra patroa, pro rh, pro patrão
que “boa aparência”, ou seja, branquitude simulada ou em essência,
não é mais requisito
pra admissão
(interrogacao)
ah, white is the new black então
(interrogacao)
e black face é o quê então
e as cara preta na televisão sempre
empregada, paisagem, figurante, vilão
(interrogação)
mas white is the new black, né não
é a onda o mais in o da moda é uau
inclusivista, democrático, horizontalista
enfia todo mundo em qualquer espaço
de boa, nada colonial,
viva a diversidade, a sagacidade capitalista
que rima acesso com preço
às vezes até o povo preto consegue pagar
o ingresso
passa cartão
(interrogação)
chama assimilação
apropriação cultural
rimando com civilização,
é
(interrogação)
(montar uma nação em cima de estupro
genocídio
epistemicídio
e escravização,
isso também é civilização,

(interrogação))
tá preto o clima
o tempo a coisa
as opinião
tem uma acidez
fortalecendo aos montes
nossos coração
y eu gosto de macaca, na real.
mas tem vez que prefiro leão:
“demais pro seu quintal”.

(versão 3.
poema inspirado por val matos, y também rafael felix,​ que num dia de azedume recitou pra mim

“eu vim do símio
não espere mais do que brutalidade”)

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s