passeio

é a política do cativeiro
a  estética do cárcere
e a pedagogia do confinamento

eles chamavam de civilização mas era escravização mesmo
e agora chamam de cordialidade mas é racismo mesmo
e também chamam de melhor-amigo mas é especismo mesmo

colonialidade ensinou o âmago a querer sempre ser sinhô
globalidade infestou coração a fingir que isso é afeto ou paixão
caridade dispensou a responsabilidade de olhar de verdade as outras necessidades

que não as do patrão,
as do dono
as do marido

então assim como acostumaram a gente a ver gente presa amontoada trancafiada
[“pela segurança”]
assim acostumaram a gente a ver corpos docilizados,
subjugados em nome de qualquer cativeiro que se chama de amor

seja num quintal sempre acorrentada mas com um saco de ração (ou no terraço)
seja na obrigação marital que romantiza a prática do estupro (ou qualquer concessão)
seja no quartinho de empregada que parece ainda um tipo de favor (“ela é quase da família”)

família que vive numa casa
casa que parece cativeiro
cativeiro que assombra como cárcere

uma política uma estética uma pedagogia

o passeio no pátio no parque no corredor

a guia o uniforme o avental

herança colonial.

 

[assim me chegou o solstício]

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