abril

ouvi silêncio fazendo suas curvas até sair de dentro de mim y comentar uma palavra no canto do seu olho, “queira”, não de forma imperativa mas como um convite pra que você falasse também. te mandei um bilhete em tempos imemoriais que agora parecem uma ilusão, então precisamente qual é a diferença entre ‘memória’ e ‘ilusão’ senão que no caso de uma memória partilhada a duas a invenção foi das duas? eu não sei, continuei ouvindo silêncio vindo em suas curvas por dentro de mim até comentar algo em meu próprio coração, numa língua ainda não inventada nem imaginada, e que portanto eu não poderia reproduzir nem mesmo como palavra montada dentro de um poema sobre a forma com que silêncio vem em curvas de algum lugar muito sutil y sedimentado lá dentro, fundo, quente, úmido de mim pra se manifestar como qualquer coisa que não uma palavra – um afago, um aceno, uma impressão, um arrepio, qualquer coisa que não uma palavra feita da desfeitura de silêncio que surge de curvas espiraladas subindo pelo aparelho fonador ou ainda de um pouco mais baixo, da boca do

esôfago.

eu ouvia por um tipo de silêncio que não me bastasse
nem me incomodasse
nem te lembrasse
nem me afagasse
nem dolorisse
nem nada
que nem fosse silêncio mesmo
só a absurdêra da vastidão em mar,
mutez de mar
que obviamente não é mudo mas
se você fosse convidada a interpretar sua voz
ou voz de deserto
ou minha voz
na sua cabeça
como faria,
a não ser por sua própria inflexão?
entende o que quero dizer quando sinto silêncio vindo-se em curvas?

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s