talha

[a talha da tradutora, dois]

entre as infidèles,
macaca
tortillera entre as sagradas vacas
(herdeiras das suffragettes)
pivete pras financiadas
& (definitivamente) cachorreira entre as perras

meu devir, sempre avesso,
me põe sem muito abrigo
humana entre os inimigos
em suma:
uma condenada.

[pausa]

mais que metáfora gasta, tradução
é ofício. ou um tipo de vício
luxuriento dos narcisos que além
do próprio umbigo não veem
espelho algum

meu carrêgo é da ancestria dos espelhos de Oxum!

lança um rasgo zombeteiro na etimologia,
que hermetismo confina, viu? – a concavidade do logos,
sua concisão convergente, a simbologia.(..)
prefiro a diabolia dispersante de Exu, a
convexidade da sua macumbaria

y quem não se vê nesse espelho, “sai!,
que ele não te pertence!” mesmo.
a verdade que foi dita pra adoçar esse ouvido
assim que foi escrita queimou no meio da encruzilhada
um padê a Elegbara, y que nunca mais se repita!..

(…até o próximo ritual.
que a verdade é circunstancial
y – me parece que – a sede de ineditismo bebe na fonte
da bobice do original: tudo é reescritura, &
quem vai com muita sede ao pote
pode engasgar – cuidado!)

[menor pausa, &: mudando de tom pra um “de foro íntimo”]

por me sentir sucia eu, depois de um banho de água doce, cobri
com essa toalha vermelha os ombros, a cabeça,
flertando a imagem da santa na frente do espelho embaçado
montando um tipo de santidade
mesmo que performátic[…]

a verdade se manifestou assim como é
então foi só abrir a porta que se escorreu pelo ralo (o ralinho da pia…)
pra mim pareceu um milagre
a transmutação do vapor em orvalho
dentro da moldura plástic[…]

and the colored girls sang
‘é um milagre! é um milagre!
hablo a mí la virgen de las panochas
en mi lengua hablo a mi
é um milagre, é um…’ [repete]

outubro de 2-13

[a talha da tradutora, um]

nada pra tornar grandes as que eu traduzo
mais mais dizer qiéça noção de grandeza
tão adorada pelos cânones
não só não cabe todo mundo:
tem quem quer não caber,
não quer entrar

que, em algum lugar da minha memória,
eu sempre imaginei que a poesia era
mais que acostumar
os ouvidos à retidão dessa ou
daqela “fórm(ul)a”,

era desacomodar o verso

poesia sobre paisagem pode ser bonita y tal
mas si num incomoda
num acode
nem apaixona ninguém por algum outro lado
[sério, nada contra “paisagem” enquanto conceito urbano]
então o qê de por dentro?

eu durmi babando um verso pela boca
quando acordei passei a mão no canto da boca
vi que o verso secô
virou pó

eu ouvi
que pra ser poeta tem que ser de um gene só

eu reli
os livros de história da escola y garganta deu um nó

viu como é fácil?
até essa gorila pode fazer rima

mas isso é poesia?

os canones me parecem cones de sinalização de trânsito no meio daquela rua em que você sempre passa (por ela) sem reparar mas aí bem no dia em que mais precisa ela foi fechada pelo “departamento de trânsito”. quem vai de apé passa por cima! dá a volta pelos canes.

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